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Revisionistas contestam ditadura militar e nazifascismo em escolas

Os chamados negacionistas basicamente tentam suavizar viol√™ncia da escravidão no Brasil e relativizam a ditadura militar

Por redação em 04/12/2023 às 15:05:57
Arquivo Agência Brasil

Arquivo Agência Brasil

A ditadura militar brasileira e o nazifascismo são os temas mais contestados pelos revisionistas ideológicos, ou negacionistas, como são popularmente conhecidos, em escolas investigadas pela pesquisa Tuas Ideias Não Correspondem aos Fatos: O Ensino de História e o Revisionismo Ideológico em Difusão na Atualidade, do pesquisador Pedro Zarotti Moreira, que desenvolveu o estudo em seu mestrado profissional na Universidade Estadual de Campinas (Unicamp).

A pesquisa é uma das primeiras a investigar a ação dos revisionistas ideológicos dentro das escolas do ensino b√°sico. Entre algumas ações dos revisionistas ideológicos est√° a abordagem que coloca a escravidão no Brasil em uma escala menos violenta; inversão do espectro político do nazismo, tentando classific√°-lo como um movimento de esquerda; e a atenuação do car√°ter deletério da ditadura militar brasileira, iniciada em 1964.

O pesquisador define o revisionismo ideológico como a an√°lise dos fatos do passado feita com metodologias próprias tendenciosas, sem a utilização de procedimentos acad√™micos reconhecidos da pesquisa historiogr√°fica. Segundo Zarotti, os revisionistas ideológicos utilizam-se, por exemplo, de casos particulares ou excepcionais do passado para "provar" que teses consagradas por historiadores acad√™micos seriam "falsas".

O professor concentrou-se em analisar o impacto desse fenômeno no exercício da doc√™ncia dentro das salas de aula da educação fundamental e média. Para tanto, entrevistou, por meio de um question√°rio com 31 questões, 85 professores volunt√°rios, participantes do Profhistória, programa de pós-graduação, coordenado na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), composto por v√°rias instituições de ensino superior destinado a professores de História que atuam na educação b√°sica.

A maioria dos docentes entrevistados atuava na Região Nordeste (36%), seguido pelos que davam aula no Sudeste (32%), Sul (20%), Centro-Oeste (6%) e Norte (2%).

Dos 85 professores ouvidos, 66 disseram ter presenciado alguma manifestação de revisionismo ideológico no espaço escolar. Os temas mais questionados, de acordo com o levantamento, foi a ditadura militar brasileira (41 citações), nazifascismo (15), escravidão (7), racismo (4), religiões de matriz africana (4), e indígenas (4).

Segundo a pesquisa, dos 66 professores que informaram ter ao menos um conteúdo questionado no espaço escolar, 60 mencionaram que esse questionamento partiu dos alunos; em seguida, aparecem os pais e ou respons√°veis (27 menções); colegas professores (23); e superiores na instituição de ensino (17).

"O que me chamou muita atenção, que eu considero muito mais alarmante do que os próprios pais, os próprios alunos em si, são as outras figuras que apareceram com um certo número também destacado, embora menor. A gente tem superiores, diretores, coordenadores, e os próprios colegas [professores], que também estão manifestando revisionismo", disse o pesquisador.

"Em um espaço que deveria ser de combate, de an√°lise, de desmontagem dessas narrativas revisionistas, ela encontra ali dentro atores sociais que estão endossando essas falas. Os professores que deveriam estar a favor do conhecimento científico, mas estão ali se posicionando contra ele, comprando esses discursos revisionistas e trazendo para a escola. Isso me preocupa muito", acrescenta.

Na resposta de um dos question√°rios da pesquisa, chamou a atenção de Zarotti o depoimento de um professor que apontou a ação de um intérprete de libras, que deveria transmitir aos alunos com defici√™ncia auditiva o conteúdo da fala do docente, mas só o fazia quando concordava com a abordagem. "Ele fala assim, h√° 2 anos tinha uma aluna surda, o intérprete só sinalizava aquilo que concordava. Chegou a passar aulas inteiras em sil√™ncio quando abordei a ditadura militar".

A pesquisa mostra ainda que os casos de revisionismo ideológico ocorrem principalmente nas turmas do último ano do ensino fundamental (9¬ļ), e nos tr√™s anos do ensino médio, principalmente no terceiro. Para o pesquisador, isso pode ser explicado pela questão et√°ria dos alunos, e pelos temas históricos que são previstos para serem tratados nas turmas desses anos.

"Ali pelos 13, 14 anos, os alunos começam a assumir uma postura mais questionadora, de embate com o professor. Isso vai se tornando mais comum, principalmente a partir do oitavo ano e o começo do nono ano. Como se eles criassem mais coragem de testar os limites dos professores. Então o revisionismo meio que d√° uma certa munição para esses alunos entrarem em conflito com os professores", explica o pesquisador.

Segundo ele, nesse período, o conteúdo program√°tico passa a abordar temas mais pol√™micos, normalmente questionados pelos revisionistas. "É a época que a gente tem a Revolução Russa, que a gente tem o Stalinismo, o próprio Fascismo, Nazismo, a ditadura militar, que é o grande ponto de maior tensão. Todos eles ocorrem a partir do nono ano".

Para Zarotti, o aparecimento nas escolas do revisionismo ideológico nos últimos anos pode ser entendido a partir da conflu√™ncia de v√°rios fatores, entre eles a polarização política ideológica, presente h√° pelo menos 10 anos no país; o avanço da internet e das redes sociais em uma arquitetura de bolhas, com pouco espaço para a pluralidade; e a chegada da direita mais radical ao poder.

"Isso d√° um certo verniz de credibilidade para o movimento porque quando voc√™ v√™ uma pessoa chefe do executivo difundindo uma fala revisionista, isso meio que legitima o movimento para aquela pessoa que est√° ali mais ou menos no meio do caminho, que é até uma direita mais moderada ou que est√° descontente com alguma coisa da situação, ou que não tem uma outra fonte de informação".

REAÇÃO À REALIDADE

Segundo o professor da √°rea de Ensino de História da Faculdade de Educação da Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF) Marcus Bomfim, uma das explicações para o aparecimento do negacionismo dentro das salas de aula e do questionamento do ofício do professor historiador est√° ligada à reação de classes sociais que viram seus privilégios serem ameaçados a partir do início do século 20 no país.

"Estou me referindo, sobretudo, à maior diversificação do corpo de pessoas na universidade, maior distribuição de renda, a ascensão social da classe D e E para classe C, da classe C para a classe B. Tudo isso, de alguma forma, evidenciou como o Brasil foi estruturado a partir de determinados privilégios", destaca.

De acordo com ele, esse processo passou a mostrar de forma clara a presença de privilégios na sociedade, o que levou a uma reação das classes privilegiadas contra essa nova leitura da realidade brasileira. "[Isso] fez com que se criasse um movimento de refutar qualquer outra leitura de mundo que pudesse colocar em risco o status quo, que pudesse colocar em risco o que j√° estava colocado", avalia.

"Quando se produz leituras de mundo calcadas numa perspectiva democr√°tica, de busca de maior justiça social, de denúncia de privilégios, isso faz com que muita gente se sinta ameaçada. E, ao se sentir ameaçado, voc√™, ao invés de discutir o argumento, normalmente voc√™ questiona o interlocutor. Voc√™ nomeia o professor como doutrinador. Começa o processo de vigil√Ęncia maior e uma tentativa de equivaler conhecimento e opinião".

Bomfim ressalta que o combate ao negacionismo dentro das salas de aula passa pela valorização dos docentes como intelectuais que participam da construção do que é ensinado dentro das escolas. Os professores, por sua vez, devem focar nas leituras da realidade que são baseadas na preocupação com a vida, com os direitos humanos e com a democracia.

"Trata-se de que o professor assuma seu compromisso com a produção de uma narrativa histórica na escola que articule os conteúdos produzidos pela ci√™ncia histórica com valores focados no que eu chamo de democracia radical, a preocupação com a vida, com os direitos humanos", disse.

"Infinitas possibilidades existem para que narrativas históricas estejam no domínio do verdadeiro. Mas quando essas narrativas tensionam vidas, fazem com que algumas vidas sejam mais perecíveis do que outras, ou, no outro extremo, que sejam mais dignas de viver do que outras, isso coloca em risco o pacto civilizatório".

Por redação

Fonte: Agência Brasil

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